Nas Entrelinhas é uma rubrica de entrevistas sobre escrita à mão, objetos com histórias e tudo o que escapa ao imediato. Um espaço para cartas guardadas, listas improváveis e gestos que pedem tempo.
Para esta edição, convidei Sofia de Moser Leitão. Entre Lisboa e Paris, constrói um universo próprio feito de curiosidade e cultura. Parece sempre um passo à frente, mas com um olhar cúmplice sobre os clássicos.
Há uma narrativa clara em tudo o que faz. Na cerâmica, encontrou uma linguagem de formas imperfeitas, cores fortes e um lado quase ingénuo, onde cabem o humor e a leveza.
Vem da moda, mas não se limita a ela. O seu trabalho tem referências sólidas e um gosto apurado, visível nas peças que cria, na forma como vive e nas imagens que produz para as marcas que a escolhem como musa.
Há consistência, mas também liberdade. Espaço para o acaso, para o erro, para o gesto não controlado.
Falámos de cartas de amor, de papéis guardados e de caligrafia. Entre rituais e memórias, fica a ideia essencial: criar também é guardar, repetir e insistir.
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Para quem escreverias uma carta em papel?
Confesso que troquei muitas cartas, quase todas com namorados, ou romances. Na verdade, quase todos os meus amores passaram por uma troca de cartas.
Guardo-as todas, desde os meus 15 anos. É um arquivo um pouco estranho, talvez. Não as releio quase nunca, mas gosto de saber que existem, como se fossem versões antigas de mim que continuam ali, intactas.
Imagino que um dia, mais tarde, vou abrir esse conjunto de cartas e achar graça.
Acho que escrever sobre amor em papel é mais honesto. O gesto em si é mais honesto do que escrever num telemóvel ou num computador, obriga a um certo tempo, a uma certa escolha das palavras, a um compromisso.
O que te inspira a criar?
Uma coisa que me inspira a criar é ouvir música.
Não consigo estar no meu atelier sem estar a ouvir música. Há um ritual: chego, faço um café, ligo a coluna, conecto o telemóvel e a partir daí, a música fica o dia inteiro comigo.
Ajuda-me a entrar num estado mais intuitivo, mais aberto. Como se, de alguma forma, desse permissão ao trabalho para acontecer.
Um livro que te marcou.
Um livro que me marcou foi Bonjour Tristesse, da Françoise Sagan.
Foi um livro que li com imenso prazer, e ao qual já voltei mais do que uma vez. Há qualquer coisa na forma como aborda a emancipação, os jogos psicológicos, uma certa imoralidade subtil… temas que sempre me interessaram.
Uma artista que te inspira.
Tenho várias artistas que me inspiram — são assim de repente diria Helena Almeida, Anni Albers e a Sonia Delaunay.
Pelo trabalho com a cor, pela forma como a organizam, quase como linguagem. Há uma liberdade muito construída, muito consciente, que me atrai.
Um objeto que vive na tua secretária.
Infelizmente não tenho espaço para ter uma secretária em casa, mas há coisas que nunca me faltam no saco que levo comigo de um lado para o outro: a minha agenda e o meu caderno da Moleskine, que compro todos os anos dois novos, e onde escrevo e desenho tudo, e uma caixa com canetas de cor.

O que nunca falta na tua gaveta de papelaria?
Papel, canetas, lápis. Sempre. Apesar de tudo sou bastante old school nesse aspecto. Nunca usei uma agenda no telemóvel, tenho sempre tudo escrito à mão.
O que está na tua lista de desejos da Papelaria Moderna?
Na minha lista de desejos da Papelaria Moderna, há uma coisa muito simples: um bom afiador de lápis. Não sei por que razão perco sempre os afiadores de lápis. O verão passado o François, um amigo meu, deu-me um especial mas já não sei dele, obviamente. Parece que têm vida própria. Nada melhor que um bom afia-lápis de qualidade.
E depois há outra coisa, mais afetiva. Para além das cartas, gosto muito de escrever pequenos bilhetes, para agradecer, dar os parabéns, ou só marcar um momento. Por isso, nunca tenho papel de carta a mais. Um conjunto bonito de correspondência, com cartões e envelopes, é sempre algo que aprecio e que sei que vou usar. E se forem giros como os da Papelaria Moderna melhor ainda :)

Afia-lápis em latão com bolsa de pele

Que objeto de papelaria gostarias que existisse — e já não existe, ou nunca existiu?
O objeto de papelaria que eu gostaria que existisse, e que nunca existiu, seria qualquer coisa capaz de mudar a minha caligrafia.
Tenho praticamente a mesma desde os 10 anos: infantil, um pouco tosca, mas completamente reconhecível por quem me conhece.
Se houvesse um aparelho, uma espécie de guia para o punho e para os dedos, que me ajudasse a escrever de forma mais bonita, para ser mais levada a sério, acho que investia imediatamente.
Um papel que nunca conseguirás deitar fora.
Um papel que nunca conseguiria deitar fora são as cartas da minha avó.
Todos os anos, no meu aniversário, escreve-me uma cartinha curta mas sempre com palavras bonitas.
Os cartões, na verdade, são quase sempre bastante feios. Se não fosse pelo que está escrito lá dentro, provavelmente já os teria deitado fora. Mas assim, sei que nunca seria capaz de me desfazer de nenhum.
Qual é a melhor carta que poderias receber no correio?
Talvez a melhor carta que eu poderia receber no correio fosse do meu irmão.
É das pessoas à minha volta que menos imagino a escrever-me uma carta (por ser bastante pudico e reservado) e talvez por isso mesmo teria ainda mais significado. Seria uma surpresa enorme. E sei que me tocaria muito. (Espero que ele não leia isto)
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