Nas entrelinhas de Joana Dornellas

|Inês Maldonado
Nas entrelinhas de Joana Dornellas

Nas Entrelinhas é uma rúbrica de entrevista, sobre escrita à mão, objetos com histórias, e tudo o que não cabe numa resposta óbvia. Um espaço para listas improváveis, cartas por escrever e o que contraria uma folha em branco.

Nesta 1ª edição, convido a Joana Dornellas, uma artista plástica de quem sou amiga e que admiro muito, pela sua imaginação inquieta, sentido de humor, criatividade sem limites, e o nosso amor partilhado pelo Jeff Buckley, o campo português, e batatas fritas. 

Apesar de uma relação próxima (e assumida) com a síndrome do impostor, a Joana desenha, dúvida, volta a criar e felizmente para todos nós, desafia-se sempre a ir mais longe.

Aqui falámos de cartas que gostaria de ter recebido, de lápis imperfeitamente perfeitos, de papéis que simplesmente não se deitam fora e, claro, das suas escolhas de papelaria.

...

Para quem escreverias uma carta em papel?
Durante a minha adolescência escrevi muitas cartas em papel, para primos, paixonetas e amigas, e adorava quando chegava alguma coisa no correio. E como eu era muito insegura nessa altura, acho que ia adorar receber uma carta da Joana do futuro a dizer só: “Deixa-te de merdas.”

O que é te inspira a criar?
Eu sei que devia dizer a gargalhada de uma criança ou a luz da manhã no orvalho… mas o que me inspira mesmo são fotografias tortas - mesas meio comidas, flores sem pose e misturas de cores menos óbvias. Fotografias tortas, mas verdadeiras.

Um livro que te marcou.
Li há pouco tempo a Ana dos Cabelos Ruivos com os meus filhos e continuo a pensar nele com regularidade.

Uma artista que te inspira.
Esta é fácil - Sandi Hester é de longe a pessoa que mais me inspirou neste meu processo artístico, mas também a Emily Powell - ambas têm uma "trapalhice" que muito me inspira.

Um objeto que vive na tua secretária
Há uma caixa de mostarda Colman's cheia de lápis que colecionamos de Museus e Hotéis que visitámos. Maior parte deles são lápis de qualidade duvidosa, mas todos têm uma boa história.

 

O que nunca falta na tua gaveta de papelaria?
Sou super fã de lápis de carvão 4B! não há vida sem um 4B. E também uma resma de papel para tudo o que é listas, ideias, testes, recados, construções.

O que está na tua lista de desejos da Papelaria Moderna?
As canetas de tinta permanente Kaweco e aqueles conjuntos de correspondência da Rossi em todas as cores

Que objeto de papelaria gostarias que existisse — e já não existe, ou nunca existi?
Isso é muito difícil - acho que talvez um lápis preto mesmo mesmo preto que escreva grosso e super intenso mas que não borre. é mesmo difícil encontrar um lápis que faça isto - ou são cinzentos, ou são finos ou esborratam tudo - o mais próximo que encontrei foram os china markers mas ainda não é perfeito!

Um papel que nunca conseguirás deitar fora.
Um recado que o meu marido escreveu no papel vegetal que estava a embrulhar o bolo de iogurte que a minha mãe contrabandeou para dentro de Santa Maria quando o  meu primeiro filho nasceu. O meu marido ficou tão emocionado que escreveu: Viva o "Joquim" - priceless.

Qual é a melhor carta que poderias receber no correio?
Uma carta a dizer: deixa-te de merdas.