Nas Entrelinhas é uma rubrica de entrevistas sobre escrita à mão, objetos com histórias e tudo aquilo que escapa às respostas óbvias. Um espaço para listas improváveis, cartas por escrever e ideias que insistem em contrariar a folha em branco.
Nesta edição, conversamos com a arquitecta Inês Moura. Podem encontra-la a escolher peças de sonho na Galeria da Estrela ou a magicar um dos seus mil projectos no Atelier Inês Moura.
Há pessoas que entram num espaço e veem apenas o que lá está; a Inês vê também aquilo que veio antes e aquilo que ainda pode vir a ser. Talvez seja por isso que os seus projetos parecem sempre habitar mais do que um tempo: respeitam a memória dos lugares sem nunca ficarem presos a ela.
Partilhamos algumas referências: os Cocteau Twins, a arte clássica, as fotografias da Francesca Woodman, mas é sobretudo a sua forma de olhar para o mundo que me inspira. Há uma delicadeza rara na maneira como observa as coisas, uma atenção aos detalhes, às histórias e aos vestígios que os outros tantas vezes deixam passar. É uma das pessoas a quem recorro quando preciso de reencontrar beleza, tanto nas coisas mais simples como nas mais extraordinárias.
Falámos sobre artistas que a acompanham, as borrachas da infância, cartas para o futuro e, naturalmente, as suas escolhas de papelaria. Uma conversa sobre memória, amor, objetos e as pequenas coisas que acabam por ficar connosco.
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Para quem escreverias uma carta em papel?
Para a minha filha, sempre que viajo escrevo-lhe uma carta de cada lugar onde vou e envio-a pelo correio. Um dia espero que as leia e imagine os sítios por onde fui passando, cheia de saudades dela.
O que é te inspira a criar?
Adoro começar a pensar um projecto, no seu contexto, nos materiais existentes, na sua história, e através do programa lançado, pensar numa linha contínua que seja por vezes suave, outras vezes que rasga, outras que marca, como um tipo diferente de lápis e o seu risco. Cada projecto deve para mim, respeitar o lugar e a partir daí ganhar uma imagem única, que une passado e presente para ser vivido no futuro.
Um livro que te marcou.
Rui Chafes, Sob a Pele, Conversas com Sara Antónia Matos.
Uma artista que te inspira.
Francesca Woodman, os seus auto retratos onde explorava a relação do seu corpo com o espaço, arquitectura e história, através de metáforas e narrativas imaginadas, estão sempre muito presentes na minha vida.
Um objeto que vive na tua secretária
Fita métrica e canetas.

O que nunca falta na tua gaveta de papelaria?
Canetas, muitas canetas uni-ball eye pretas.
O que está na tua lista de desejos da Papelaria Moderna?
Quando entro na loja, vou automaticamente ao material escolar, adoro cada objecto que a Inês selecciona, mas se tivesse de escolher um, seria a lapiseira preta da kaweco.

Que objeto de papelaria gostarias que existisse — e já não existe, ou nunca existi?As borrachas da Iwako ainda existem, mas como pertencem a um imaginário longínquo, para mim ainda fazem parte do mundo dos sonhos.
Quando era pequena, a minha prima tinha uma colecção de borrachas linda, todos os objectos e personagens em borrachas. Brincávamos horas com elas e vinham sempre de um mundo que parecia estar já no futuro.
Um papel que nunca conseguirás deitar fora.
O primeiro papel que a minha filha me escrever.
Qual é a melhor carta que poderias receber no correio?
Adorava receber uma carta do Nick Cave com uma das suas histórias escritas para mim.
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