Nas entrelinhas de Mariana Sabido

|Inês Maldonado
Nas entrelinhas de Mariana Sabido

Nas Entrelinhas é uma rúbrica de entrevista sobre escrita à mão, objetos com histórias e tudo o que não cabe numa resposta óbvia. Um espaço para listas improváveis, cartas por escrever e aquilo que insiste em contrariar uma folha em branco.

Nesta edição, convido a Mariana Sabido, fotógrafa. A Mariana faz retratos, mas sobretudo capta a passagem do tempo. Não apenas nas famílias que acompanha há anos, mas na forma como repara, na luz, sim, mas também no que nos emociona antes de sabermos que nos emociona. Vê o que escapa, o que quase não aconteceu, o que está prestes a desaparecer. Há nela qualquer coisa da crueza íntima da Sally Mann, atravessada pelo mundo de quem já viveu em Londres e no Brasil e por isso sabe que o planeta é imenso e, ao mesmo tempo, absurdamente frágil.

Planeia viagens, lê muito, vê tudo. Vive inquieta, como deve viver quem se deixa deslumbrar pelo belo.

É a amiga com quem partilho esta obsessão pela beleza e com quem sonho acordada com dias mais lentos. Falamos do campo como de um amor antigo (e dos próprios amores antigos também) do que nos move e do que nos fica. Temos um pacto silencioso: continuar a inspirar-nos. Conto tê-la sempre ao meu lado a trocar imagens, poemas, livros, filmes. Os nossos pequenos grandes tesouros.

Aqui falámos de cartas que gostaria de ter recebido, de cartas que escrevemos, de papéis que não se deitam fora e, claro, das suas escolhas de papelaria.


...

Para quem escreverias uma carta em papel?
Para a minha avó. Que todas as noites se deitava na cama e escrevia cartas e cartas a toda a gente. Para as minhas filhas, para quem escrevo continuamente. Tenho caixas com postais e cartas guardadas para elas abrirem um dia. E ainda ao meu padrinho. Durante anos escrevemos-nos via carta.

O que é te inspira a criar?
Cinema, ver muito cinema. Ver livros infanties. Escrever à noite. Ouvir outras pessoas a contar a suas historias.

Um livro que te marcou.
Quanto tempo tem um dia - Susana Moreira Marques. Li numa fase que tinha um bebé pequenino e aqui ressoou em mim. Agora estou a ler "A Correspondente." 

Uma artista que te inspira.
Sally Mann, pela razões obvias. Admiro muito o trabalho dela. Wim Wenders pela lentidão do seu cinema.

Um objeto que vive na tua secretária
Papel sempre. Preciso de escrever para não esquecer. Um copo de madeira que era do meu Tio B, quando morreu a minha prima deu-me exactamente como ele estava, com lapis, canetas, borracha etc.

 

O que nunca falta na tua gaveta de papelaria?
Canetas azuis. Tesoura.

O que está na tua lista de desejos da Papelaria Moderna?
Papel de Carta.

 

Papel de carta crown mill com moldura em bordeaux


Que objeto de papelaria gostarias que existisse — e já não existe, ou nunca existiu?
Ui...nunca pensei nisso!

Um papel que nunca conseguirás deitar fora.
Fotografias. Cartas.
Um recado da minha avó mesmo antes de ela morrer. Onde me dá a sua benção entre outras coisas.
Um enorme número de emails que imprimi, que o meu pai me enviou quando eu morava no Brasil. Nunca me ligava, mas quase todas as semanas envia-me um email com notícias de todos.

Qual é a melhor carta que poderias receber no correio?
Uma carta das minhas filhas, quando estiverem a viver do outro lado do mundo, a darem notícias.

 

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