Nas entrelinhas de Mariana, a miserável

|Inês Maldonado
Nas entrelinhas de Mariana, a miserável

Nas Entrelinhas é uma rubrica de entrevistas sobre escrita à mão, objetos com histórias e tudo o que escapa ao imediato. Um espaço para cartas guardadas, listas improváveis e gestos que pedem tempo.

Para esta edição, convidei Mariana, a miserável, ilustradora de quem sou fã há muito tempo. Partilho com ela o amor pelo trabalho da Susana Moreira Marques e da Maria Keil, e admiro-lhe a capacidade de encontrar graça onde ela não é necessariamente óbvia.

A Mariana encontra desenhos nas situações que lhe acontecem, nas pessoas que conhece, nas frases que lê ou ouve por acaso. O seu universo é feito de humor, ironia e pequenos absurdos, mas também de uma atenção muito particular ao quotidiano.

Falámos de cartas ao Pai Natal, cadernos, lapiseiras e postais de férias. Recentemente, a Mariana lançou um livro sobre a história do Sísifo e, com ela, até uma pedra empurrada montanha acima pode dar uma boa história para rir.

A Mariana tem uma característica reservada às pessoas que mais admiro: não se leva demasiado a sério. Talvez seja por isso que consiga olhar para o dia-a-dia com tanta atenção e encontrar-lhe o lado mais absurdo.

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Para quem escreverias uma carta em papel?
Ao pai Natal.

O que é te inspira a criar?
Há várias coisas nesta vida que me dão vontade de desenhar. A maior parte delas não é óbvia, mas acho que a beleza está em encontrar agulhas num palheiro. Gosto muito de situações que me façam rir sem que essa seja necessariamente a intenção, gosto de pensar sobre coisas que me acontecem, ou a pessoas que conheço, frases que leio ou que oiço por acaso.

Um livro que te marcou.
O 'Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro', de Susana Moreira Marques. Foi a minha irmã que mo ofereceu no Natal, e achei-o muito bonito, fez-me sentir o mesmo que senti quando visitei a exposição de fotografias da Maria Lamas na Gulbenkian. A Chaka Khan resume bem: 'I'm Every Woman, it's all in me'.

Uma artista que te inspira.
Maria Keil, a operária das artes, como se autointitulava. É uma figura absolutamente inspiradora: dedicava-se a variadíssimas áreas: ilustração, pintura, tapeçaria, azulejo e tudo o que fazia, fazia-o muito bem. Ainda assim, era um pouco menosprezada pelos pares, por não se dedicar apenas a uma disciplina considerada mais nobre. O seu trabalho foi tão inovador que continua a ter relevância nos dias de hoje.


Selos vintage Maria Keil


Um objeto que vive na tua secretária
Vários cadernos: o calendário mensal, o caderno dos desenhos, o das listas e o papel de rascunho.

mesa mariana a miserável


O que nunca falta na tua gaveta de papelaria?
O meu objecto de papelaria favorito é a lapiseira. Sou coleccionadora, mas, em vez de as ter paradas em exposição, tenho várias a uso, espalhadas pelas divisões da casa, gavetas, carteiras e mochilas e é com elas que faço aqueles desenhos a linha que costumo publicar no Instagram.

O que está na tua lista de desejos da Papelaria Moderna?
Correndo o risco de ser repetitiva e, porque sou muito coerente, ando a namorar a lapiseira de madeira OHTO 0.5mm verde.

 

lapiseira verde


Que objeto de papelaria gostarias que existisse, e já não existe, ou nunca existiu?
Quando era pequena, sonhava em ter o estojo gigante de canetas Molin, o de 100 cores. No máximo, tinha direito ao de 15, na altura do regresso às aulas. No ano passado, a minha vizinha ofereceu-me um estojo de 50, e realizei, sem esperar, esse sonho antigo que já nem me lembrava. Aposto que se a Molin voltasse a fabricar aquelas canetas exactamente como eram, seria um sucesso de vendas!

Um papel que nunca conseguirás deitar fora.
Todos os meus cadernos: os que tenho preenchidos, os que ficaram a meio e os que estão em branco à espera que pegue neles.

Qual é a melhor carta que poderias receber no correio?
Costumo receber postais de férias de amigos e da minha irmã, são as melhores cartas. Em contrapartida, lembro-me da aflição de receber cartas da senhoria, não recomendo.

Fotografia: Mariana Miserável e Fred Gomes

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