A Colecção de “Folhinhas Queridas”: Uma Viagem aos Anos 80

|Inês Maldonado
A Colecção de “Folhinhas Queridas”: Uma Viagem aos Anos 80

Nos anos 80, entre os discos de Mini-stars e Ondachoc, o cartão jovem e "A Minha agenda", Portugal descobriu uma pequena obsessão perfumada: as “folhinhas queridas”.

Quem viveu aquela década, lembrar-se-á com carinho do cheiro que vinha dos blocos pequenos, com desenhos pirosos impressos sem contraste, tipo marca d'água, com aromas que iam da uva falsa ao morango sintético. 

Essas folhas perfumadas, vendidas em papelarias (esse templo do sonho de criança), não eram apenas um objeto banal. Não bastava pegar na mesada e comprar. Exigia anos investidos para trocar com as amigas da escola, com a prima mais velha, com a filha da amiga dos pais que vem lá a casa um dia e que acede a outros tantos blocos mais raros que não existiam no nosso bairro. A grande sorte era de quem tinha um bloco inteiro, que depois podia trocar à folha com outras.

Dentro dos dossiers forrados com recortes de revistas; nos cadernos com pierrots, Mafaldas e ilustrações da Sarah Kay; em envelopes da Hello Kitty ou numa mica já amarrotada: as folhinhas ofereciam mais que a obsessão da colecção e que a felicidade do achado muito raro, eram sobretudo uma forma de pertença ao universo do grupinho das meninas da escola.

 


 

Para quem não viveu este fenómeno, penso que será justo comparar esta moda com as colecções de cromos dos rapazes, ainda que essas perdurem até hoje e sejam mais fáceis de completar. A colecção das folhinhas queridas não tinha fim, e só tinha um rival: a colecção das borrachinhas de cheiro.

Hoje, estas folhinhas (não vale dizer no singular) evocam mais do que o aroma discreto que desprendiam. Representam uma era em que as crianças não estavam inundadas de ecrãs, em que não exisitia internet e em que os brinquedos eram muito poucos e pouco variados.

Receber uma folhinha querida nova para a colecção era uma alegria gigante. Além da óbvia nostalgia, há uma lição: a beleza e a memória muitas vezes residem nos gestos mais simples.

 

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